quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Ernesto Nazareth

blog
luisnassif, ter, 26/10/2010 - 19:30
http://www.brasilianas.org/blog/luisnassif/trivial-de-ernesto-nazareth#more








De Luiz Antonio de Almeida

Querido Nassif, saudações.

Depois que passei a compreender um pouco mais os mistérios da Internet
e aproveitar o que o veículo tem de melhor, principalmente em relação
à divulgação de nossas opiniões, vi se aproximarem de mim pessoas
muito especiais que liam meus artigos, acessavam meu perfil no orkut,
mas não faziam bem idéia de onde eu vim, do meu passado.

Preocupado quanto ao evidente desconhecimento de muitos em relação a
parte significativa de minha história e acreditando que algumas
lembranças pudessem resultar na confecção de um bom artigo, apresento,
agora, pelas páginas do “João do Rio”, uma série de fatos que ligam
minha vida à memória do compositor e pianista Ernesto Nazareth, autor
de clássicos como “Brejeiro”, “Apanhei-te, cavaquinho!...” e “Odeon”.

Tenho certeza que você não se arrependerá dos minutos dispensados à
leitura desse artigo.

Grande abraço e obrigadíssimo...

Luiz Antonio

Minha vida com Ernesto Nazareth

Primeira Parte

por Luiz Antonio de Almeida *



Ernesto Nazareth em frente à casa da Rua Visconde
de Pirajá, nº 12, seu segundo endereço em Ipanema. Rio, 1929. (02)

Depois que passei a compreender um pouco mais os mistérios da Internet e aproveitar o que o veículo tem de melhor, principalmente em relação à divulgação de nossas opiniões, vi se aproximarem de mim pessoas muito especiais que liam meus artigos, acessavam meu perfil no orkut, mas não faziam bem idéia de onde eu vim, do meu passado. Estou completando 34 anos de estrada. Portanto, minha trajetória de pesquisador da música brasileira talvez seja mais antiga que a própria web e superior a idade da maioria dos meus leitores.

Preocupado quanto ao evidente desconhecimento de muitos em relação a parte significativa de minha história e acreditando que algumas lembranças pudessem resultar na confecção de um bom artigo, procurando, inclusive, não esquecer (mas esquecendo!) as palavras do editor do “JR” para dimensionar o texto observando o bom senso, apresento, agora, uma série de fatos que ligam minha vida à memória do compositor e pianista Ernesto Nazareth, autor de clássicos como “Brejeiro”, “Apanhei-te, cavaquinho!...” e “Odeon”.



Meu primeiro endereço:
Rua Prudente de Moraes, Ipanema. (02)

Comecemos. Nasci em Volta Redonda (RJ), aos 6 de março de 1962. Dizem, a respeito do meu nascimento naquela cidade, que meus pais foram passar o carnaval em casa de parentes e mamãe, certa noite, num baile, começou a sentir as dores do parto. Ela, que sempre fôra péssima em matemática, errou nas contas da gestação. Porém, alguns dias mais tarde, já estávamos em nosso apartamento à Rua Prudente de Moraes, nº 281/301, quadra da praia de Ipanema.

A vizinhança, excelente: Juscelino Kubitschek de Oliveira (que seria padrinho de meu irmão Francisco, mas a “revolução de 1º de abril” não deixou), Laura Alvim, Artur da Távola, Dr. Paulo Niemeyer, Dr. Pedro Octávio de Brito Pereira, Família Marc Ferrez e Zely Nazareth, conhecida de mamãe, neta de Mário e Alice Nazareth, ambos primos de Ernesto Nazareth. Aos fundos, dividindo muro com o nosso prediozinho, o palacete da família Coelho de Magalhães, na Avenida Vieira Souto, nº 192 (antigo nº 158).



Hilda Abreu de Almeida, minha mãe, “emoldurada” pelas
casas de Ernesto Nazareth e Àlvaro Alvim, com o coqueiro
na frente. Ipanema, 1960. (02)

Em 1969, duas irmãs solteironas, Yolanda e Beatriz, filhas do pintor Gaspar Coelho de Magalhães, trocam casa e passado pelos quatro primeiros apartamentos (dois de fundos!) no monstrengo que se ergueria, pouco depois, no mesmo terreno. Eu acompanhei a demolição do palacete, brinquei nos seus escombros, furei meu pé num prego enferrujado que atravessou minha sandalinha e que, até hoje, passados quarenta anos, quando ando descalço por muito tempo, ainda me faz sentir fisgadas junto à quase invisível cicatriz que ficou...

E por que toda essa história? Porque, em 1917, Ernesto Nazareth morou naquele mesmo palacete, em um porão tipo apartamento. Ou seja, minha casa fazia fundos com a casa de Ernesto Nazareth, brinquei muitas vezes no mesmo quintal onde, num varau, cinquenta anos antes, Dona Theodora Amália, esposa do ilustre pianista, estendia as roupas da família e, de quebra, tinha como vizinha Dona Yolanda a quem o compositor dedicara uma valsa, em 1925. Eu não fazia a menor idéia de quem fosse Ernesto Nazareth e o destino já começava a interligar nossos caminhos.



Palacete dos Alvim antes da reforma que o desfiguraria.
Hoje, no local, encontra-se a Casa de Cultura Laura Alvim. (01)

À mesma Avenida Vieira Souto, nº 176, próximo ao palacete das Coelho de Magalhães, moravam outras duas irmãs: Laura e Mariana Agostini de Villalba Alvim (esta última, passando maior parte do tempo em Brasília). Filhas do afamado Dr. Álvaro Alvim e netas do célebre desenhista Angelo Agostini, ambas ainda mantinham na sala o piano Bechstein preto, meia cauda, em que Ernesto Nazareth passava horas tocando. Mariana, que perdera o marido num acidente aéreo, e Laura, solteira, não deixaram descendência. Porém, Dona Laura “adotava” algumas meninas da vizinhança e, sempre que possível, organizava festinhas para as aniversariantes com direito a bolo, guaraná e performances daquelas que tocavam piano. Denise e Virgínia, minhas irmãs, amiguinhas de algumas das “adotadas”, chegaram a participar, exibindo seus dotes pianísticos, de pelo menos uma dessas ocasiões. Eu, na condição de “penetra”, também. Mas acho que não cheguei a tocar.

Costumava me aproximar do piano das Alvim quando Dona Laura não estava por perto. A casa era enorme, três andares, e eu, muitas vezes acompanhado pelo Antonio Orlando, filho de uma das empregadas, fazia do lugar uma espécie de play-ground. Certa vez, durante a obra que transformaria o então decadente casarão no centro cultural que hoje lá se encontra (graças a Darcy Ribeiro, que conheci pessoalmente, e Fernanda Montenegro), cheguei a chamar a atenção de um “peão” que resolvera pintar o teto da sala fazendo do instrumento seu andaime. Com sete ou oito anos, defendi o piano em que Ernesto Nazareth tocava sem nem mesmo saber quem era Ernesto Nazareth...



Em 1969, o “terror” de Dona Laura Alvim. Lembrança da 2ª série
primária, Escola 4-1-V Castelnuovo, Rua Francisco Otaviano, nº 105. (02)

Ainda em 1969, exatamente no dia 11 de dezembro, após apresentar-me com minhas irmãs em recital de piano transmitido ao vivo pela Rádio Roquette-Pinto, fomos almoçar num restaurante que, anos mais tarde, alguém me identificaria como “Chamego do Papai” (o que nunca pude confirmar). Nessa ocasião, ao reconhecer em um grupo pertinho de nós a figura do grande Pixinguinha, mamãe, levando-me junto, foi cumprimentá-lo. Homem simples, mas possuidor de requintado traquejo social, Pixinguinha levantou-se, beijou a mão de minha mãe e, em seguida, abraçou-me. E, assim, eu acabava de receber o abraço de um dos maiores amigos e admiradores de Ernesto Nazareth...



Na foto, a pianista Eudóxia de Barros, responsável
pelo meu “encontro” com Ernesto Nazareth. (04)

Existem algumas datas que poderiam marcar minha entrada na área da pesquisa musical. Mas, de todas, a mais representativa, sem dúvida, é a que corresponde a 24 de outubro de 1976, o domingo em que, respondendo sobre vida e obra de Ernesto Nazareth, a pianista paulista Eudóxia de Barros viu encerrada sua participação no programa “8 ou 800”, da Rede Globo, apresentado por Paulo Gracindo e sua linda assistente Sílvia Falkenburg (depois Bandeira).

Eudóxia, ao deixar o programa, acabou não nos falando dos momentos derradeiros do grande mestre do piano brasileiro. Nós, telespectadores, já havíamos sido informados, em outros domingos, de passagem, que ele morrera louco, surdo e que, talvez, tivesse dado fim à própria vida. Mas essa história, com detalhes, a pianista não conseguiu nos revelar... E foi exatamente a vontade de conhecer o que Eudóxia não disse o ponto de partida do desenvolvimento da pesquisa que, um dia, sem que eu jamais esperasse por isso, se tornaria referência em Nazareth. Se Eudóxia tivesse completado sua participação eu, certamente, teria me dado por satisfeito, o presente artigo jamais seria escrito e minha vida seguiria rumo completamente diferente...



Sede do Museu da Imagem e do Som, nos dias de hoje.
Praça XV, Rio de Janeiro. (04)

Ainda em 1976, passei a freqüentar o Museu da Imagem e do Som, na Praça XV, a Biblioteca da Rádio Roquette-Pinto e a Fonoteca Pública (que funcionava no andar térreo do mesmo prédio que abrigaria, anos mais tarde, a sede Lapa do MIS). Na Praça XV, num sobradinho cinza, feioso, demolido na década seguinte, e espécie de anexo do prédio principal do MIS, conheci nada menos que Henrique Foréis Domingues, o famoso “Almirante”, cuja coleção particular, ao ser adqüirida pelo governo do antigo Estado da Guanabara, tornou-se parte fundamental do acervo do museu.

Mesmo tendo sido, praticamente, a primeira pessoa a por um livro de música brasileira em minhas mãos, eu, na pouca vivência dos meus 14 anos, obviamente, não tinha a menor noção da importância de “Almirante”. A museóloga Adua Nesi, estagiária dele, naquela época, e que por mais de 35 anos exerceria funções junto à instituição, é testemunha desses dias. Outros três grandes pesquisadores também passariam a marcar presença em minha vida como incentivadores e orientadores: Mozart de Araújo, Aloysio de Alencar Pinto e Ary Vasconcelos.



Eu, o soprano Luiza Sawaya, hoje residente em
Portugal, e Ary Vasconcelos. Rio, 1991. (02)

No finalzinho de 1977, da Ipanema de minha infância e puberdade, mudei para Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. Da infernal Rua Visconde de Pirajá, nº153/701, para a bucólica Rua Landell de Moura, nº 84, na Taquara, em casa com piscina, a um quilômetro da Colônia Juliano Moreira e dois da represa na qual, afogado, Ernesto Nazareth terminou seus dias. A partir de então, assim que me foi possível, iniciei minhas embrenhadas pelos arquivos e matas da Colônia e ainda acabei visitando a casa em que morou Jacob do Bandolim, genial instrumentista e intérprete de Nazareth, à Rua Comandante Rubens Silva, nº 62, na Freguesia.



Colônia Juliano Moreira. Fazenda-sede e antiga residência do administrador.
Nesse local, o compositor almoçava as quintas-feiras, acompanhado
da filha Eulina de Nazareth. Jacarepaguá, Rio, 1933. (03)

Nessa época, minha pesquisa podia ser considerada tipicamente estudantil. E era mesmo. Entretanto, informações preciosas acabariam dando a ela uma nova dimensão, formando seu diferencial. Na Colônia, por exemplo, além do acesso ao prontuário de Nazareth, consegui localizar contemporâneos do famoso paciente como Dona Carmen Antunes da Silva (professorinha do grupo escolar que, juntamente com seus alunos, ficou doente ao beber da água contaminada pelo corpo putrefacto de Nazareth), Célio da Silva Ferreira (filho de antigos funcionários, em criança conheceu o maestro), Dona Elza Medrado (governanta da família do Administrador, na casa do qual Ernesto almoçava servido por ela), Dr. Heitor Carpinteiro Péres (médico que chegou na CJM pouco antes da morte do compositor) e, finalizando, Bento d’Ávila (enfermeiro particular do pianista).



Cachoeira na qual encontraram o corpo de Ernesto Nazareth.
Era domingo de carnaval, dia 4 de fevereiro de 1934. (03)

Morador à Rua Souto, em Cascadura, Bento Manuel Moreira de Ávila prestou a mim duas horas de um depoimento em que narrou, com impressionantes detalhes, os últimos meses de Ernesto Nazareth. Era uma coisa estranhíssima: eu, sem ter o conhecimento necessário de como entrevistar alguém, fui fazendo perguntas absolutamente pertinentes, descobrindo coisas tão próximas, tão íntimas do compositor... E hoje, quando leio a transcrição das fitas ainda me surpreendo, pois não esqueci de perguntar nada! Se o Bento estivesse vivo e houvesse a necessidade de uma nova entrevista, eu faria praticamente as mesmas perguntas.



Dimas Joseph, do “Jornal do Brasil”, eu, Ari Soares, apresentador, e
Ayres Filho. Programa “Aqui e Agora”, TV Tupi, canal 6. Rio, 1978. (02)

Em 1978, conheci o jovem Ayres de Oliveira Pombo Filho, responsável pelo jornalzinho Somar, publicação voltada aos alunos no Colégio Souza Marques, em Cascadura, onde ambos estudávamos. Pouco depois, já participando da equipe do Somar, recebemos, em solenidade presidida pela Condessa Pereira Carneiro, o “Prêmio Jovem Jornalista”, concedido pelo “Jornal do Brasil”.

De outubro de 1978 a março de 1979, foi ao ar, pela Rede Globo, a novela “A sucessora”, escrita por Manoel Carlos a partir da obra homônima de Carolina Nabuco, tendo como música de abertura o chorinho “Odeon”, de Nazareth, com letra de Vinícius de Morais e interpretado por Nara Leão, que podemos ouvir acessando o seguinte link:

http://www.youtube.com/watch?v=VKxBjrZJwhw



Susana Vieira e Rubens de Falco, casal protagonista
da novela “A sucessora”. TV Globo, 1978/1979. (04)

Em maio de 1979, na coluna “Nossos Compositores”, do jornalzinho Somar, saiu o primeiro artigo que escrevi na vida: “Ernesto Nazaré”. No ano seguinte, 1980, após encontrar matéria de um jornal na qual o maestro Francisco Mignone declarava ter conhecido pessoalmente Nazareth, fui procurá-lo. E, a partir daquele encontro, ganhei mais um amigo e orientador.



Com o maestro Francisco Mignone, no apartamento
dele, à Rua Pompeu Loureiro, Copacabana, 1983. (02)

Em seguida, ainda em 1980, iniciou-se fraternal amizade entre mim e a família de Ernesto Nazareth, então resumida a Diniz e Julita, filho e sobrinha do compositor, de 92 e 84 anos, respectivamente. Diniz era solteiro e Julita casada com Walter Siston, mais novo que ela cerca de vinte anos e com quem não teve filhos. Todos, incluindo uma afilhada de Julita, Elza Pinto Torres, residiam à Rua Cari Levi, no Bairro do Jardim América, Zona Norte do Rio.



Julita, filha de Vasco Lourenço (irmão de Ernesto) e
Guilhermina Adelaide (irmã de Theodora Amália). Portanto,
sobrinha do compositor por parte de pai e mãe. (02)

Havia duas casas em um mesmo terreno. Diniz morava sozinho na da frente e o casal, mais Elzinha, na dos fundos. Meu primeiro contato foi com Julita, numa entrevista em que terminaria com a seguinte revelação: “Diniz ainda vive...” Surpreso, pois julgava-o morto, perguntei onde ele morava. Outra revelação: “Nessa casa aí...” apontou-me a digna senhora. Maravilhado, pedi para vê-lo. Walter, então, procurou dissuadir-me da idéia. Disse que Diniz não recebia ninguém, que era uma pessoa “irasciva”. Eu, que nem sabia o que era isso, retruquei: “Pôxa, vim de tão longe e vou embora sem conhecer o filho de Ernesto Nazareth?...” Insisti, insisti... Walter, entregando os pontos, pediu a Celina, empregada da família, que fosse chamá-lo.



Os filhos do compositor: meu amigo Diniz Nazareth
e Ernesto Nazareth Filho, de gravata borboleta. (02)

Ele veio, curvado, apoiando-se em uma bengala... E assim que me viu, sorriu e abraçou-me afetuosamente! Espantado com aquela reação, Walter resolveu se explicar dizendo que era um homem de palavra, que não mentira para mim, que dissera a verdade a respeito de Diniz... Mas o tal abraço, no entanto, “selou” meu destino. Walter era espiritualista e me diria, mais tarde, que a manifestação de carinho protagonizada por Diniz era típica entre pessoas que se gostavam, pessoas que se conheciam há muito tempo... Diniz, segundo o pensamento de Walter, teria reconhecido em mim alguém de seu passado.

Pouco depois, as visitas se intensificaram. Passei, inclusive, a dedicar meus finais de semana a Diniz, Julita, Walter e Elzinha. Muitas vezes, dormia num quarto da casa de Diniz, na cama que fôra do próprio Ernesto. Em algumas madrugadas, Diniz ia para o piano e começava a tocar. Sensacional! Eu deitado na cama de Ernesto Nazareth e ouvindo o filho dele ao piano. Nos sábados, após almoçar com Julita, Walter e Elzinha, um mesmo compromisso: jogar dominó com Diniz. E assim, passaram-se dois anos.



Julita e seu esposo Walter Siston, minha sobrinha
Ana Caroline Abreu de Almeida Stringuini Bernardo e minha mãe,
Hilda Abreu de Almeida. Jardim América, Rio, 1986. (02)

Em 1982, criei a “Coleção Luiz Antonio de Almeida”, constituída, principalmente, por documentação diretamente relacionada à minha pesquisa, e o “Projeto Ernesto Nazareth”, objetivando a preservação e divulgação da memória do ilustre artista mediante organização e restauração do acervo da família, realização de palestras e recitais, entrevistas para jornais e revistas, programas de rádio, televisão, etc.

Após a morte de Diniz, em 8 de janeiro de 1983, Julita, já na condição de herdeira universal de Ernesto Nazareth, doou a mim todo o acervo do tio guardado pelo primo. Ela também queria me fazer detentor dos direitos autorais do compositor, mas o juiz que tratou de toda a documentação, amigo de Walter, disse a ela que isso só seria possível se existissem laços de consagüinidade ou se o próprio tivesse deixado seus direitos para mim.

Mesmo assim, vivenciei uma experiência que acredito jamais ter sido experimentada por outra pessoa no mundo! Que meus leitores me corrijam se estou exagerando ou faltando com a verdade. Porém, desconheço a existência de outro pesquisador que tenha se tornado “herdeiro” do pesquisado. É certo que são inúmeras as vezes que um pesquisador recebe, como prova de carinho por parte da família do pesquisado, um retrato, uma caneta, uma lembrança qualquer... Mas todo o acervo, só conheço o meu caso.

O falecimento de Diniz foi o primeiro dos grandes golpes que eu sofreria em minha vida. Diniz havia ficado desidratado por causa de uma incontinência intestinal e como eu conhecia um médico do Hospital Universitário Gama Filho (hoje Hospital Municipal da Piedade), consegui a internação dele naquele lugar. Tudo estava indo bem. O filho de Ernesto Nazareth recuperava-se. Visitava-o todos os dias. Ele, inclusive, recebia carinhosa atenção dos companheiros de enfermaria, principalmente em consideração aos seus 94 anos.

Mas ninguém, infelizmente, percebeu a bomba relógio que estava prestes a explodir. A cama de Diniz, por mais absurdo que possa parecer, tinha rodinhas!... E numa madrugada, quando todos dormiam, ao procurar subir na cama, depois de uma ida ao banheiro, esta se movimentou e Diniz foi ao chão, batendo fortemente com a cabeça. No mesmo hospital, já em quarto separado e cama sem rodinhas, meu amigo idoso, que nunca mais recobraria plenamente a consciência, morreria 16 dias depois.

Na manhã do infausto acontecimento ajudei um enfermeiro a vestí-lo. Eu nunca estivera tão próximo de um morto. Mas não podia deixar que Diniz partisse sem esse último gesto de amizade. Ele não era nenhum indigente e seria, sim, vestido por alguém que, de certa forma, representava sua família, alguém que o amava. E assim foi feito...



Última morada de Ernesto Nazareth e seus familiares.
Cemitério São Francisco Xavier, foto de Augusto Malta. (03)

Por volta do meio dia, cheguei ao Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, e me coloquei à disposição de Walter, esposo de Julita, para ajudar no que fosse preciso quanto às coisas do enterro. Walter não precisou de mim. Depois, fui informado que tinha gente arrumando a sepultura. Caminhei até lá e vi, depositadas ao lado do jazigo, cinco caixas: duas de pedra (as mais antigas), duas de plástico (com os restos mortais de Eulina e Esther, filha e nora do compositor) e uma de amianto (com os restos mortais de Ernesto Nazareth Filho).

Em uma das caixas de pedra identifiquei duas ossadas (com crânios pequenos) como pertencentes a Theodora Amália e Maria de Lourdes, esposa e filha do compositor. Na outra, os restos mortais de Ernesto Nazareth que, para surpresa do coveiro, fiz questão de segurar nas mãos. E por mais estranho que tal atitude pudesse parecer aos olhares presentes, não resisti diante dessa oportunidade única de “tocar” em Ernesto Nazareth. Ou no que sobrou dele... Naquele exato momento, começou a passar pela minha mente, como se fosse um filme, imagens de gente dançando num baile, moças dando risadinhas, pessoas entrando e saindo das casas de música, da sala de espera do cinema Odeon... Ernesto tocando, tocando... Só alegria, felicidade...




















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