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As vésperas de votar, o eleitorado que se identifica com o PSDB e a oposição já esta confrontado com a disputa aberta entre os diversos componentes do campo oposicionista, sobre o futuro da aliança PSDB-DEM-PPS.
Pelas projeções das pesquisas o DEM será reduzido quase à dimensão do PPS, a verdadeira questão do futuro desse campo passa mais que nunca pelo desfecho da disputa no interior do PSDB.
A renovação partidária bate na porta como exigência de sobrevivência e não só como necessidade geracional. José Serra terá disputado dois eleições presidenciais e se confirmadas as previsões, perdido ambas. Mas essas derrotas acompanharam um processo de declínio e não de construção ou progresso da formação tucana. Por isso não serão comparadas com as que acompanharam e pavimentaram a subida de Lula e o PT até o Planalto. No caso de Serra fecham um período e abrem uma interrogação sobre o futuro.
As chaves para entender esse processo de declínio estavam certamente inscritas na experiência dos oito anos da presidência de FHC, mas não é essencialmente esse fator o responsável do impasse atual. A impopularidade de FHC, que serviu de argumento para esconder-lo nas campanhas de 2006 e 2010, ofuscou o necessário balanço crítico daquele período. Nenhuma voz se elevou na liderança partidária tucana para defender um questionamento dos elementos centrais que marcaram essa experiência e expor a possibilidade de uma superação crítica do passado, uma verdadeira renovação.
Ao mesmo tempo, a oposição manifestada durante estes oito anos de governo Lula, foi marcada pela ausência de programa alternativo e um denuncismo hipócrita, alimentado por uma parte da mídia, que ocultou a ausência de programa e propostas alternativas de poder. Uma oposição com imagem raivosa e sem programa alternativo, aguardando um improvável desgaste do governo Lula que fizesse cair no seu colo novamente o governo. Tentada permanentemente pelo questionamento institucional, pela procura de crises e por saídas pouco democráticas.
A campanha Serra foi a expressão mais acabada dessa ausência de renovação programática e rapidamente apresentou sua face udenista mais raivosa. Ela posicionou claramente o seu candidato, como o candidato do revanchismo e da direita mais troglodita. Ela aponta para um caminho que faz cada vez mais do PSDB, um agrupamento de um setor das elites paulistas com um perfil de direita e conservador. Para esse setor, representado também por uma certa mídia, o PT é uma força política ilegítima e antidemocrática que deve ser destruída, banida do espaço democrático e tratada como caso de polícia.
Esse conservadorismo de direita, averso ao dialogo e em ruptura com o que foi a própria origem da formação peessedebista, ganhou corpo e encontra na figura de Geraldo Alckmin sua melhor representação. Foi essa a cara na disputa de 2006 e acabou sendo a cara na disputa de 2010, pelo desespero que ganhou conta do próprio Serra e pelo conteúdo social da sua candidatura. Essa “cara”, guarda um certo apoio no eleitorado paulista, herdando uma parte da tradicional escola da direita populista – conservadora, que acompanhou o ademarismo, o janismo e o malufismo. Recuperado precisamente na sua comum aversão à esquerda e ao PT hoje.
Mas o Brasil mudou. O empresariado não é mais aquele que proclamava sua fuga em massa, caso Lula vencesse às eleições. Hoje uma parte significativa do empresariado nacional vota abertamente em Dilma. Um setor majoritário das classes médias fora de São Paulo e até no Estado bastião do tucanato, vota pelos candidatos do PT ao Senado, para deputados e governadores. Ou em candidatos de formações políticas aliadas ao PT no governo, como é o caso de Sérgio Cabral (PMDB) no Rio, Eduardo Campos (PSB) em Pernambuco, para falar só em dois deles.
Mas talvez o mais emblemático seja o resultado da eleição para presidente, no próprio Estado de São Paulo. As pesquisas indicam um favoritismo de Dilma, que não deixa dúvidas sobre o impasse da candidatura presidencial tucana. Onde Serra pretendia ganhar com 6 milhões de votos de vantagem, onde governou antes de se lançar candidato, hoje disputa para evitar sua derrota.
Em essas circunstâncias, qual vai ser o significado da votação de domingo para o futuro do PSDB?
Os eleitores, da situação e da oposição, vão determinar também em grande medida o caminho que será percorrido pelo PSDB, a partir do “day after”.
Dois atores, aliás, já se posicionam para encarnar esse momento de questionamento, que se abrirá após as eleições,. E é o voto que determinará, em certa medida, o peso que terão no futuro.
O eleitorado do PSDB tem ainda a possibilidade de dar um conteúdo político ao seu voto, direcionado a escolher qual é o caminho que deseja para seu partido e para a oposição ao governo e ao PT.
Um desses atores é o que poderíamos denominar o PSDB paulista, ou mais adequadamente o “serrismo-alckminismo”, hoje agindo de conserto na orientação udenista descrita acima.
O jornal Valor descreve assim o processo pelo qual Alckmin se prepara para recuperar e unificar esse conglomerado:
“Acusado de rachar o partido nas eleições de 2006 e 2008, quando insistiu em disputar a Presidência da República e a prefeitura de São Paulo, respectivamente, chocando-se com os interesses da ala do partido fiel a José Serra, Alckmin quase não foi o candidato escolhido para a disputa estadual este ano. Apesar de, desde as primeiras pesquisas de intenção de voto, aparecer como provável vencedor já no primeiro turno, quaisquer que fossem os adversários, Alckmin não era o preferido de um bom pedaço do PSDB, incluindo boa parte dos 205 prefeitos tucanos no Estado e dos deputados estaduais do partido na Assembleia Legislativa. Aloysio Nunes Ferreira, secretário da Casa Civil no governo Serra, era o outro nome cotado.
Alckmin foi o escolhido, mas teve de se submeter ao crivo da ala serrista. Sua campanha é toda cercada de pessoas da confiança de Serra. O marqueteiro, Luiz González, cuida das duas campanhas. Roger Ferreira, assessor de imprensa, que já havia trabalhado com Alckmin e pulou para a campanha de Gilberto Kassab (DEM) em 2008 (como boa parte do tucanato), está de volta. Sidney Beraldo, coordenador-geral, foi secretário de Gestão Pública no governo Serra. Escolhido por transitar nas duas alas do tucanato paulista, Beraldo teve ainda outra missão: trazer Kassab, seu amigo, a quem Alckmin chamara de “dissimulado” em 2008, para a campanha estadual.
Se a ideia era monitorar a fidelidade de Alckmin, este foi além. Disposto a reaver a confiança da ala serrista, tornou-se o mais fiel cabo eleitoral de Serra. Mesmo quando a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, disparou nas pesquisas e Serra caiu, Alckmin foi dos únicos que se mantiveram, a cada evento público, a pedir votos ao presidenciável. “Geraldo sabe que será o grande nome do partido no Estado se o Serra perder. Mas só será um nome de expressão nacional se conquistar a parte do PSDB que hoje está com Serra”, avalia um integrante da campanha”. (Em SP, Alckmin aposta na unidade do PSDB para virar liderança nacional – VALOR 1/10/2010).
Desse lado é a continuidade da mesmice que levou a oposição ao impasse atual. Ela se beneficiaria da vitória de Alckmin ou de uma eventual ida de Serra para o segundo turno, para adiar qualquer processo de renovação que implique a ruptura com o denuncismo e a oposição raivosa. Manteria o governo estadual como um bunker fechado, não só para poder acolher os quadros partidários e se beneficiar da poderosa máquina de poder estadual, mas para alimentar a persistência de uma orientação conservadora.
O outro ator é representado pela força emergente de Aécio Neves, que marcou posição ao longo do último período, procurando representar a renovação do discurso social-democrata. Lançou pontes em direção a Ciro Gomes e não recusou o dialogo e os acordos até com setores do próprio PT. Ele foi escanteado pelo rolo compressor do serrismo e será mantido nessa situação provinciana, caso o bloco paulista do tucanato ganhe sobrevida na eleição nacional e estadual.
Chegou-se a afirmar que Aécio estaria de malas prontas para abandonar o PSDB, o que ele nega. Mas a verdade é que será o desfecho das urnas que determinará o caminho dessa importante liderança tucana.
Em momentos em que o eleitor estará teclando a urna eletrônica no domingo, ele estará escolhendo ao mesmo tempo qual será o caminho que percorrerão os atuais atores do tucanato e mais importante, estará escolhendo qual é o caminho que ele deseja para a oposição.
Votando Dilma e descartando um segundo turno na disputa presidencial, os eleitores tucanos contribuirão para derrotar a continuidade do udenismo raivoso no próprio tucanato. Estarão reforçando o caminho da renovação. A liderança de Dilma nos Estados governados pelo PSDB já manifesta essa disposição do eleitorado que se identifica com o tucanato. Particularmente no Estado de São Paulo, se Dilma derrotar Serra no primeiro turno, essa mensagem será avassaladora para o futuro nacional do PSDB.
A vitória de Dilma aparece como inelutável em todos os cenários projetados pelos institutos de pesquisas e pelos analistas políticos, no primeiro ou no segundo turno. Mas a derrota de Serra no primeiro turno é a garantia de um primeiro passo no caminho da renovação do próprio PSDB, eliminando e debilitando o polo conservador.
O voto Dilma é um voto útil, incluso para o eleitorado que não se identifica com ela e com o governo do presidente Lula, permitindo que esse processo de consolidação democrática – decantando e renovando a oposição – possa florescer no interior do PSDB
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