segunda-feira, 22 de novembro de 2010

mídia - Velocidade, serenidade e política

O BISCOITO FINO E A MASSA,
Um dos pensadores que mais me impactaram durante a preparação do meu livrinho sobre a violência foi o urbanista francês Paul Virilio. Signatário daquelas que talvez sejam as reflexões mais originais sobre a guerra no nosso tempo, Virilio faz da velocidade a categoria central de seu pensamento. A sociedade contemporânea seria, para Virilio, essencialmente dromológica, ou seja, caracterizada pela primazia da velocidade. Daí ele extrai consequências bem interessantes para pensar a guerra, que não vêm ao caso para este post, que é sobre velocidade, paranoia e política.

Ontem, confesso, me bateu certo cansaço no Twitter. Pela primeira vez desde que me engajei na campanha, me permiti uma botecagem com meus alunos de pós-graduação, o que foi decisão muito sábia. Minha irritação não vinha de mais uma rodada de bandidagens da mídia brasileira, posto que esta já não tem o poder de afetar meu humor. Minha falta de paciência era com alguns dos próprios camaradas de esquerda. A partir da queda de Erenice Guerra—que, como qualquer queda de ministro, não advém da culpabilidade ou da inocência, mas de um cálculo político, correto ou não, da relação custo / benefício—e da notícia de uma palestra de Reinaldo Azevedo e não sei mais quem no Círculo Militar, os camaradas despirocavam no Twitter como se os tanques de Olímpio Mourão Filho, Odílio Denys e Castello Branco já estivessem às portas de Brasília.

Já adianto que não aceito que se tome este texto como um chamado à passividade ou ao imobilismo. Há alguns dias, eu alertava contra o clima de já ganhou e insistia na importância de se continuar trabalhando. Mantenho tudo o que disse lá. Que a imprensa brasileira é golpista até a medula não resta dúvida. Mas manter isso é bem diferente de pensar, agir, falar e escrever como se estivéssemos à beira de um golpe de estado para impedir a eleição de Dilma Rousseff. Desculpem-me, não estamos, e despirocar como se estivéssemos não presta nenhum serviço à campanha de Dilma. Na humilde opinião deste atleticano blog, você contribui muito mais se der aquela checada com o vizinho para conferir se ele sabe mesmo onde está o título de eleitor.

Atentos, pero sin enloquecer jamás.

Parte da piração advém da polaridade normal da eleição, da incrível saraivada de baixarias em que se transformou a campanha de Serra e do histórico de bandidagem da mídia brasileira. Mas há outra parte que é produto, creio, da velocidade das ferramentas com as quais trabalhamos hoje. Já sou veterano de cinco campanhas eleitorais na internet (2004, 2006, 2010 e duas em 2008, a brasileira e a gringa). Não há comparação entre a velocidade com que trabalhávamos nos blogs em 2006, quando inexplicáveis fantasmas instalavam grampos jamais encontrados no escritório de Gilmar Mendes (e a mídia brasileira, com sua tremenda desonestidade, não falava de outra coisa), e o que fazemos hoje no Twitter. Para dar um exemplo: as caixas de comentários do Biscoito sempre estiveram abertas para o link off-topic, com o qual o leitor me trazia alguma notícia, em geral saída do forno. Hoje, não há a menor necessidade disso, porque é improvável que você me traga uma notícia nova (relevante) que eu ainda não tenha visto no Twitter.

A coisa ali é de uma velocidade estonteante. Facilita a circulação de informações, mas nem sempre estimula o raciocínio mais sofisticado e crítico.

Discordo dos camaradas que dizem que o governo contemporizou demais com os conglomerados máfio-midiáticos. O governo agiu corretamente com eles: 1) Garantiu a liberdade de imprensa: Globo, Veja, Folha e Estadão jamais foram censurados, apesar das insistentes referências a Hitler e Mussolini na imprensa brasileira; 2) Iniciou a comunicação direta com a população, através de órgãos como o Blog do Planalto e o Blog da Petrobras; 3) Democratizou a circulação das verbas de publicidade, o que realmente enfureceu os caras; 4) Realizou a Confecom, que envolveu a sociedade civil e estabeleceu as bases para um outro modelo de comunicação.

Fazer mais que isso não é papel de governo. Combater a mídia não é tarefa do governo. É tarefa nossa. Nesse combate, superestimar o poder do adversário pode ser tão daninho como subestimá-lo. Falar como se Globo e Veja estivessem em condições de dar um golpe de estado hoje só serve para produzir confusão do lado de cá e aumentar a moral do lado de lá. Pedir que Lula vá à TV atacar uma insignificância como Mario Sabino é entregar a bola ao time deles. A bola está com a gente, lembram?

O que há que se fazer agora é fortalecer a campanha para fechar essa parada no primeiro turno. Depois da eleição, podemos pensar em uma grande ofensiva sobre esses veículos, com campanhas de cancelamento de assinaturas e, muito especialmente, intensa pressão sobre os anunciantes, atividade que não tem muita tradição no Brasil e que produz efeitos devastadores quando bem aplicada aqui nos EUA. Eu sinto que nós já temos força para isso. Tem que ser bem feito, mas temos.

Por enquanto, a tarefa é ganhar a eleição no dia 03 de outubro. Claro que essa tarefa inclui o combate a distorções da mídia. Mas ela também inclui—e às vezes nos esquecemos disso—apresentar nossa candidata a esses 10% de indecisos que ainda estão por aí. A candidata é fera, sabe das coisas, nós governamos bem e temos o que mostrar. Vamos embora pra luta com um pouquinho mais de leveza e alegria.



PS: Ainda sobre o tema do post: o site do Nassif de vez em quando cai mesmo. Às vezes um charuto é só um charuto, dizia o sábio Segismundo.

PS 2: Nem vou dizer isso no Twitter para não gerar polêmica mas, caríssimos candidatos de esquerda: na humilde opinião deste blogueiro, um "tuitaço" é coisa que só serve para espantar seguidores.

PS 3: Completaram-se, mês passado, 70 anos da morte de León Trotsky.

PS 4: Lula e Dilma foram destaque no Clarín, que mandou repórter para cobrir as eleições brasileiras. O cabra está em Recife, atônito com o fato de que exista governante em fim de mandato com aprovação de 96%, que é o índice de Lula em Pernambuco.

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