Julian Assange, procurado pela Interpol, dá entrevista a site em que acusa os EUA de tramar contra sua vida
Responsável por vazar informações sigilosas diz que tem mensagens guardadas para o caso de ser preso ou morto
Thomas Coe/France Presse
Imagem em tela de computador do WikiLeaks, em que aparece o fundador, Julian Assange
VAGUINALDO MARINHEIRO
DE LONDRES
Mesmo escondido da Interpol, Julian Assange, fundador do WikiLeaks, voltou a atacar ontem os Estados Unidos. Disse que o país está por trás de ameaças contra sua vida e que não respeita a liberdade de expressão.
Afirmou ainda que se alguma coisa acontecer com ele, documentos ainda não divulgados sobre os EUA e outros países serão publicados imediatamente.
Para Assange, a pessoa que entregou os documentos do governo americano para serem divulgados no site é um herói sem igual.
Ele deu indicação forte de que se trata do soldado Bradley Manning, preso nos EUA (leia perfil na página 2).
O fundador do WikiLeaks, que continua em lugar desconhecido, participou de uma sessão de perguntas e respostas com leitores do site do jornal "The Guardian", do Reino Unido.
Foram enviadas mais de 900 perguntas, mas ele respondeu a apenas 15.
Quando questionado se temia pela própria segurança, disse que sim e que está tomando as precauções necessárias porque está lidando com uma superpotência.
Depois, afirmou que aqueles que sugerem que deve ser caçado (como Sarah Palin, candidata a vice-presidente pelo Partido Republicano nas últimas eleições dos EUA e estrela da direita americana) ou morto (como Tom Flanagan, conselheiro do primeiro-ministro canadense) deveriam ser processados por incitar o seu assassinato.
Ainda sobre a questão segurança, Assange disse que arquivos com documentos sobre os EUA e outros países ainda não revelados estão espalhados por vários países e com muitas pessoas.
Tudo seria divulgado imediatamente, segundo afirmou Assange, se alguma coisa acontecesse com ele.
"A história vencerá. O mundo será elevado a um patamar melhor. Sobreviveremos? Isso depende de vocês", escreveu o dono do site, na entrevista.
AMAZON E HERÓI
Assange disse que a decisão da Amazon de não mais hospedar o WikiLeaks em seu servidor, após pressão do governo dos EUA, mostra que a liberdade de expressão é uma ficção no país.
"Desde 2007, temos deliberadamente usado servidores em jurisdições em que a gente suspeita exista deficit de liberdade de expressão. A intenção é separar retórica de realidade. A Amazon foi um desses casos."
Um leitor perguntou se ele não achava que era necessário agradecer e elogiar a fonte dos documentos que foram divulgados e trouxeram tanta fama ao site e ao próprio Assange.
"Um dos nossos objetivos, nos últimos quatro anos, tem sido reverenciar a fonte que assume quase todos os riscos num trabalho de divulgação jornalística. Sem os esforços dessas fontes, o jornalismo não seria nada. Se realmente for o caso, como alega o Pentágono, de que o jovem soldado -Bradley Manning- está por trás de algumas das nossas divulgações recentes, então ele é, sem dúvida, um herói sem igual."
ET E RÉPTEIS
A maioria das perguntas trazia elogios a Assange. Alguns até perguntavam como fazer para doar dinheiro ao WikiLeaks.
Algumas eram apenas curiosas. Um leitor perguntou se ele tinha recebido documentos sobre objetos voadores não identificados.
Assange respondeu que alguns malucos mandam e-mails sobre extraterrestres ou dizendo que são o anti-Cristo. Mas disse que em documentos da diplomacia americana a serem publicados, há referências a óvnis.
Outro questionou se havia algo sobre répteis que estão andando por aí sob a pele de humanos, como afirma o escritor inglês David Icke.
Essa não foi respondida.
Republicanos pedem pena de morte para suposto vazador
Hacker afirma que Bradley Manning confessou ter copiado documentos secretos quando estava no Iraque
Preso desde maio em base na Virgínia, militar passa por avaliações psicológicas e pode ir a julgamento já em 2011
DE SÃO PAULO
Enquanto o criador do WikiLeaks, Julian Assange, recebe atenção mundial pelos vazamentos de documentos secretos, a provável fonte deles é mantida isolada e vê TV, onde se informa sobre o alcance de sua suposta ação.
Trata-se do soldado Bradley Manning, 22, um analista de inteligência do Exército americano que esteve no Iraque e está preso desde maio.
O militar enfrentará julgamento por supostamente copiar telegramas diplomáticos e pelo vazamento de relatórios sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque.
Ele ainda é acusado de vazar vídeo que mostra o ataque de um helicóptero militar a civis iraquianos.
Mas republicanos -como Mike Huckabee- querem que o responsável seja acusado de traição e condenado à pena de morte.
Nascido em 1987 no Estado de Oklahoma, Manning alistou-se aos 18 anos. Após receber treinamento como analista de inteligência, foi enviado para Nova York e depois para a Guerra do Iraque.
Mas ficar isolado, no meio do deserto, parecia ser pouco para as ambições do soldado.
Em maio, Manning contatou Adrian Lamo, hacker americano que invadiu a página do "New York Times", Yahoo e outras empresas antes de se entregar ao FBI.
O "El País" diz que mensagens entre os dois ficaram armazenadas no computador de Lamo, que informou ao Pentágono sobre o assunto.
Ao jornal, Lamo confirmou que Manning é mesmo a fonte dos vazamentos.
"Se tivesse acesso sem precedentes a redes restritas 14 horas por dia, setes dias por semana, durante mais de oito meses, o que faria?", questionou em conversa com o hacker em 21 de maio.
No dia seguinte, Manning confessou que havia feito o download de centenas de milhares de documentos de redes secretas do Pentágono.
E tinha uma prova: um telegrama da Embaixada dos EUA em Rejkiavik, no qual se relata uma reunião entre autoridades islandesas e um assessor do embaixador britânico, que fora publicado pelo WikiLeaks em fevereiro.
Nas conversas com Lamo, o soldado diz ainda que tinha um contato com Assange.
O soldado descreveu até como fazia as cópias: entrava na sala com um CD da Lady Gaga, por exemplo, e, enquanto fingia cantar uma das músicas, apagava seu conteúdo e copiava dados da inteligência em seu lugar.
RESSENTIMENTO
Em suas conversas com Lamo, Manning demonstra frustração e ressentimento com o Exército e com os EUA. E teria confessado: "[...] Bem, enviei ao WikiLeaks. Deus sabe o que acontecerá agora. Espero que haja uma grande discussão mundial, debates, reformas".
O soldado está isolado em uma cela na base de Quantico, em Virgínia, onde é submetido a avaliações mentais.
Até agora, o Exército apenas apresentou acusações contra ele pelo roubo de dois vídeos de guerra e pelo vazamento de 50 telegramas. Por isso, ele pode ser condenado a 52 anos de prisão.
O julgamento pode ocorrer no primeiro semestre de 2011
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