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O trabalho algoritmizado e suas consequências desumanas, por Fábio de Oliveira Ribeiro
O trabalhador fica à
disposição do empregador o tempo todo. Ele assume o risco da atividade
econômica como se fosse um empresário.
Por Fábio de Oliveira Ribeiro -30/06/2020
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Foto Repórter Brasil
O trabalho algoritmizado e
suas consequências desumanas
por Fábio de Oliveira Ribeiro
No mundo em que os algoritmos
fazem tudo, inclusive e principalmente garantir os lucros fabulosos de seus
proprietários mantendo-os absolutamente distantes e inatingíveis pelos seus
empregados, os seres humanos estão sendo condenados a não fazer nada. Explico.
Algoritmos não suprem uma
necessidade. Eles criam uma. Para trabalhar as pessoas são praticamente
obrigadas a se cadastrar nas plataformas que exploram o trabalho remunerando-o
não pelo tempo à disposição do empregador e sim pelo tempo efetivamente gasto
no trabalho.
A diferença entre o trabalho
tradicional e o controlado pelo algoritmo é evidente. Quando está a disposição
do empregador, o empregado é remunerado caso esteja trabalhando ou não. O risco
da atividade econômica é atribuída ao empresário. Isso significa que ele se
apropria dos lucros quando a empresa trabalhada à toda carga. Mas é ele que
suporta o prejuízo de remunerar o salário dos empregados caso a empresa seja
obrigada a reduzir ou a interromper a produção.
Isso não ocorre em relação ao
trabalho algoritmizado. O trabalhador fica à disposição do empregador o tempo
todo. Ele assume o risco da atividade econômica como se fosse um empresário.
Quando é acionado o trabalhador tem que cumprir a tarefa imediatamente para ser
remunerado, caso contrário a mesma será atribuída a outra pessoa cadastrada na
plataforma.
No primeiro caso empregado não
pode ser prejudicado em razão das oscilações do mercado. No segundo as
oscilações do mercado não provocam nenhum ônus para o empregador, pois a margem
de lucro dele é protegida pelo distanciamento total entre ele e o empregado.
Numa empresa as relações entre
o capitalista e o empregado são pessoais. Isso pode ser fonte de abusos e de
perseguições, mas também pode originar um respeito mútuo não mediado
exclusivamente pelo desejo do lucro. Vinculados exclusivamente aos algoritmos,
os trabalhadores das plataformas de internet estão totalmente desligados dos
seus empregadores.
As necessidades humanas de uns
e outros são ignoradas pelo sistema. Ele é impessoal e essa impessoalidade é um
problema.
Leia também: O fiasco econômico de Augusto Pinochet, por
Luiz Alberto Marques Vieira Filho
Ao criticar a possibilidade de
um governo mundial, Hannah Arendt disse que:
“O fato de nenhum indivíduo –
nenhum déspota, per se – poder ser identificado nesse governo mundial não
mudaria de forma alguma o seu caráter despótico. O governo burocrático, o
governo anônimo do burocrata, não é menos despótico porque ‘ninguém’ o exerce.
Ao contrário, é ainda mais assustador porque não se pode dirigir a palavra a
esse ‘ninguém’ nem reivindicar o que quer que seja.” (A promessa da política,
Difel, Rio de Janeiro, 2008, p. 149)
Empregado por “ninguém”, o
trabalhador submetido ao algoritmo não tem a quem dirigir a palavra. Ele faz
greve, mas a greve não é sentida como uma manifestação coletiva na porta da
fábrica ou dentro dela.
Os entregadores de alimentos
entraram em greve
https://www.istoedinheiro.com.br/entregadores-de-aplicativo-planejam-greve-para-1-de-julho/.
As condições de trabalho deles são realmente deprimentes.
Os serviçais do algoritmo
ficam dezenas de horas à disposição do empregador todos os dias, mas cada qual
trabalha apenas algumas horas para receber mensalmente menos do que o salário
mínimo. “Ninguém” foi identificado como o empregador contra quem esses
trabalhadores protestaram. “Ninguém” foi confrontado pela imprensa em virtude das
relações de trabalho que podem muito bem ser consideradas análogas à
escravidão. Quem o Tribunal Regional do Trabalho intimará para instaurar o
Dissídio de Greve? “Ninguém”?
Se um trabalhador morre na
empresa, a empresa pode ser responsabilizada pelo fato. Quando um empregado
algoritmizado morre, “ninguém” toma a providência adequada: a caixa de entrega
e a máquina de débito é recolhida. O cadáver fica lá estendido no chão, porque
“ninguém” poderá ser responsabilizado pela morte https://www.esquerdadiario.com.br/Entregador-morre-em-acidente-e-empresa-vai-ao-local-recolher-maquininha-e-caixa-de-transporte.
O algoritmo é um feitor de
escravos impiedoso. Ele obriga o empregado a assumir o risco da atividade
econômica, deixa-o várias horas sem fazer nada, mas quando o aciona é capaz de
puni-lo caso ele atrase a entrega ou não a realize por qualquer motivo.
“Ninguém” não se importa com as necessidades humanas dos seus trabalhadores. Se
eles morrem… Bem. Esse problema pode ser resolvido virtualmente: outro entregador
próximo ao local será acionado. O serviço de “ninguém” não pode parar. Ele é
incapaz de chorar ou de se chocar com o sangue derramado no chão.
Leia também: Desemprego chega a ser três vezes maior do
que o número oficial, por Lauro Veiga Filho
Lucro sem risco. Trabalho sem
proximidade entre empregado e empregador. Punição sem qualquer mediação da
justiça humana. Acidente fatal sem reconhecimento empresarial da humanidade da
vítima. Hannah Arendt intuiu que o maior despotismo é aquele que se torna
impessoal. Não existe impessoalidade maior do que aquela que é proporcionada
pelos algoritmos. Eles banalizam o mal de uma maneira nunca antes imaginada.
Não é nem mesmo possível
comparar o que está ocorrendo ao regime escravocrata. Um senhor de engenho
podia suspender a punição imposta ao escravo segurando o braço do feitor
encarregado de chicoteá-lo. A punição imposta pelo algoritmo é impessoal e
instantânea. “Ninguém” certamente não tem qualquer interesse em alterar o
funcionamento do algoritmo, pois isso poderá acarretar a minimização dos
lucros.
O bem estar do escravo não era
garantido pela legislação do Império. Todavia, ele era considerado um
investimento patrimonial considerável. O proprietário do escravo tinha
interesse em sua manutenção e reprodução. Se alguém mutilasse ou matasse o
escravo de outra pessoa isso seria juridicamente relevante. A violação do
direito de propriedade do senhor de escravos teria que ser reparada. Não só
isso. O art. 266, do Código Criminal do Império considerava crime “Destruir, ou
damnificar uma cousa alheia de qualquer valor”
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/lim-16-12-1830.htm.
“Ninguém” não se interessa
pela mutilação ou pela morte do trabalhador algoritmizado. Ele é uma peça
intercambiável sem qualquer valor específico que pode ser rapidamente
substituída por outra escolhida de maneira impessoal pelo sistema. “Ninguém”
não pode ser responsabilizado por acidentes graves e fatais que ocorrem nas
ruas com os entregadores vinculados à sua plataforma virtual de entregas. Não
foi “ninguém” que causou o acidente, muito embora ele puna a demora na entrega,
obrigando o motoboy ou o ciclista a correr riscos que seriam desnecessários
caso o tempo dela fosse maior.
Os escravos costumavam fugir e
criar quilombos. Eles eram auxiliados por homens livres que se opunham a
escravidão dispostos a correr o risco de sofrer a pena prescrita por “Ajudar,
excitar, ou aconselhar escravos á insurgir-se, fornecendo-lhes armas, munições,
ou outros meios para o mesmo fim” (art. 115, do Código Criminal do Império
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/lim-16-12-1830.htm).
Como pode o trabalhador
autônomo submetido à uma plataforma de internet romper os grilhões que o
vinculam ao empregador impessoal? “Ninguém” faz a intermediação entre os
entregadores e as entregas garantindo o menor custo do serviço que eles
prestam. Portanto, as empresas que se servem da plataforma de internet não tem
qualquer interesse em contratar os serviços dos entregadores que não estejam
submetidos ao algoritmo.
Tudo bem pesado, podemos
concluir que a situação do trabalhador algoritmizado pode ser considerada pior
que a do escravo. Não existe saída para a situação dele sem a adoção de uma
legislação que limite de maneira pró-ativa o uso de plataformas virtuais,
responsabilizando os donos delas pelos acidentes e mortes ocorridas durante a
relação de emprego. Os empregadores devem ser obrigados a remunerar os
empregados pelo tempo que eles ficam à disposição sem serem ativados pelo
algoritmo.
a
O imperativo da expropriação e
suas consequências políticas, por Fábio de Oliveira Ribeiro
Utilizando informações obtidas
dos telefones e dos hábitos de navegação dos usuários na internet, o Google
pode saber onde você está, o que você provavelmente quer indicando-lhe o que
você deve fazer.
Por Fábio de Oliveira Ribeiro
-20/05/2020
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O imperativo da expropriação e
suas consequências políticas
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Ao estudar o processo de
consolidação do capitalismo de vigilância, Shoshana Zuboff identificou quatro
estágios do ciclo de expropriação de informações que garantem o fluxo contínuo
de excedente comportamental indispensável para o Google obter lucro
comercializando previsões sobre o que os internautas farão ou comprarão no futuro.
“The four stages of the cycle are incursion, habituation, adaptation and
redirection. Taken together, these stages constitute a ‘theory of change’ that
describes and predicts dispossession as a political and cultural operation
suported by an elaborate range of administrative, technical, and material
capabilities. There are many vivid examples of this cycle, including Google’s
Gmail; Google’s efforts to establish supply routes in social networks, first
whit Buzz and then with Google+; and the company’s development of Google
Glass.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs,
New York, 2019, p. 139)
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Tradução:
“As quatro etapas do ciclo são
incursão, habituação, adaptação e redirecionamento. Tomados em conjunto, esses
estágios constituem uma ‘teoria da mudança’ que descreve e prevê a
desapropriação como uma operação política e cultural suportada por uma gama
elaborada de recursos administrativos, técnicos e materiais. Existem muitos
exemplos vívidos desse ciclo, incluindo o Gmail do Google; os esforços do
Google para estabelecer rotas de suprimento nas redes sociais, primeiro com o
Buzz e depois com o Google+; e o desenvolvimento do Google Glass pela empresa.”
Cada um desses estágios é
explicado de maneira detalhada pela autora. É possível resumi-los da seguinte
maneira:
Incursão
Num primeiro momento, o Google
usou artifícios para capturar unilateralmente e sem autorização as informações
dos computadores, telefones, páginas de internet dos usuários de internet. Num segundo
momento a empresa começou a capturar imagens das ruas e parques como se o
espaço público pudesse ser transformado num manancial privado inesgotável de
dados à sua disposição.
Habituação
À medida que o tempo foi
passando, a resistência das pessoas e das instituições que defendem a
privacidade começou a diminuir e o Google passou a utilizar estratégias
agressivas para se livrar de demandas judiciais e punições administrativas em
razão de ações cada vez mais invasivas. A autora narra em detalhes o escândalo
do Street View: os veículos do Google não apenas capturavam imagens das ruas e
sim todo o conteúdo privado produzido e compartilhado pelas pessoas que usavam
redes de Wi Fi no momento em que ele estava passando.
Adaptação
Nos países em que o Google
sofreu maior resistência por causa dos abusos do Street View (Austrália,
Bélgica, Canadá, França, Holanda, Irlanda, Polônia, Reino Unido, Estados
Unidos, etc…), a empresa se adaptou pagando multas e assumindo compromissos de
descartar imagens consideradas indesejadas e os dados ‘inadvertidamente’
coletados das redes de Wi Fi. Ninguém está em condições de saber ao certo o que
o Google fez ou deixou de fazer.
Redirecionamento
A impossibilidade de capturar
imagens do interior dos prédios foi contornada mediante uma proposta sedutora.
Os empresários que autorizassem o Street View filmar o interior dos seus
estabelecimentos ganhariam em troca uma maior exposição virtual que atrairia
uma quantidade crescente de consumidores. O aplicativo “Driving Mode” do Google
Maps possibilita ao Google levar a pessoa até o local em que ela poderá comprar
aquilo que ela deseja. Assim, o Google não apenas valoriza sua capacidade de
prever e modificar o comportamento dos consumidores: na prática o Google
elimina a concorrência mediante o direcionamento dos consumidores obrigando
todos os empresários a se tornarem seus clientes.
Fiz um resumo dos estágios do
ciclo de desapropriação. Todavia, o leitor encontrará detalhes importantes no
livro The Age of Surveillance Capitalism.
É impossível não deixar de
observar um detalhe. O Street View também fez imagens no Brasil. Mas nós não
sabemos se o Google coletou ou não informações privadas sensíveis
compartilhadas pelos cidadãos brasileiros através de redes de Wi Fi. Eu mesmo
vi o carro do Google passando pela rua onde funcionava meu escritório de
advocacia e “mostrei o dedo” para a câmera. Enquanto eu fazia isso o Google
coletava informações da minha rede de Wi Fi sem eu saber?
Ao narrar a saga do imperativo
de extração de informações através do Android, Shoshana Zuboff afirma que:
Leia também: A nova auctoritas e sua verdade: o não
pertencimento, por Fábio de Oliveira Ribeiro
“Google fiercely defends threatened supply routes. Any disruption of its
extration operations and its exclusive claims to raw material is the line that
canot be breached.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff,
PublicAffairs, New York, 2019, p. 135)
Tradução:
“O Google defende ferozmente
rotas de suprimentos ameaçadas. Qualquer interrupção de suas operações de
extração e suas reivindicações exclusivas de matéria-prima é a linha que não
pode ser violada.”
Aplicativos colocados à
disposição dos usuários de Smartphones com sistema operacional Android contém
rotinas que possibilitam ao Google e/ou seus parceiros empresariais monitorar o
comportamento do usuário do telefone. As informações são coletadas sem
autorização do dono do aparelho. O “Google tracking infrastructure” possibilita
ao Google coletar informações de navegação dos usuários da maioria dos websites
mais populares. Na prática, o Google adquiriu uma capacidade de vigilância que
somente os Provedores de Internet conseguem ter.
Utilizando informações obtidas
dos telefones e dos hábitos de navegação dos usuários na internet, o Google pode
saber onde você está, o que você provavelmente quer indicando-lhe o que você
deve fazer.
“…‘Customer satisfaction’ therefore equates to Google’s dominant market
share in lucrative new bahavioral futures markets, fed by its every expanding
extraction architecture.
New supply routes are continuously constructed and tested, and only some
go operational. Routes that reliably produce scale, such as the Android
smartphone operating system or Gmail are elaborated and institucionalized.
Those that fail are shuttered or modified. If one route is blocked, another is
found. Successful suply routes double as canvases for targeted advertising
expanding the reach of behavioral future markets and simultaneously engaging
users in ways that yeld yet more behavioral surplus. There will always be a
changing roster of supply routes, but all variations share the same operational
mandate: the capture of behavioral surplus and the acquisition of decision
rights. Like a river running to the sea, if one route is blocked, another is
found.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs,
New York, 2019, p. 129/130)
Tradução:
” A ‘satisfação do cliente’
equivale à participação dominante do Google em novos e lucrativos mercados
futuros comportamentais para cada arquitetura de extração em expansão.
Novas rotas de suprimento são
continuamente construídas e testadas, e apenas algumas entram em operação.
Rotas que produzem escala de maneira confiável, como o sistema operacional
Android para smartphone ou o Gmail, são elaboradas e institucionalizadas.
Aquelas que falham são fechadas ou modificadas. Se uma rota estiver bloqueada,
outra será encontrada. As rotas de fornecimento bem-sucedidas são duas telas
para publicidade direcionada, expandindo o alcance de mercados comportamentais
futuros e, simultaneamente, envolvendo os usuários de maneiras que geram mais
excedente comportamental. Sempre haverá uma lista de mudanças nas rotas de
suprimento, mas todas as variações compartilham o mesmo mandato operacional: a
captura do excedente comportamental e a aquisição de direitos de decisão. Como
um rio correndo para o mar, se uma rota é bloqueada, outra é encontrada.”
Nos países desenvolvidos onde
causou problemas, o Google consolidou o ciclo de expropriação de informações
utilizando um repertório sofisticado (ousadia, sedução, procrastinação,
litigância, submissão aparente às demandas estatais, compromisso de
auto-regulação, etc…). No Brasil, ao que parece o Google preferiu aplicar a
força bruta.
Essa tese defendida por mim no
texto anterior desta série
https://jornalggn.com.br/artigos/o-capitalismo-de-vigilancia-no-paraiso-da-ausencia-de-lei/
fica ainda mais evidente quando consideramos algumas informações cruciais
fornecidas pelo livro de Shoshana Zuboff.
Leia também: O dia em que o Brasil perdeu uma eleição, por
Flavio Goldberg
“In the decade that followed 9/11 surveillance excepcionalism was also
expressed in the flattery of imitation, as the NSA tried to become more like
Google, emulating and internalizing Google’s capabilities in a variety of
domains.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs,
New York, 2019, p. 117)
Tradução:
“Na década que se seguiu ao 11
de setembro, o excepcionalismo da vigilância também foi expresso na bajulação
da imitação, à medida que a NSA tentava se tornar mais como o Google, emulando
e internalizando os recursos do Google em vários domínios”.
Para garantir o sucesso o
Google não apenas se ligou à comunidade de inteligência norte-americana
econômica e tecnologicamente através de um contrato de 15 milhões de dólares
com a NSA. Muros políticos de contenção foram construídos para remover qualquer
obstáculo ao seu crescimento.
“Fortifications have been erect in four key arenas to protect Google and
eventually other surveillance capitalists, from politicam interference and
critique: (1) the demonstration of Google’s unique capabilities as a source of
competitive advantage in electoral politics; (2) a deliberate blurring of
public and private interests through relationships and aggressive lobbying
activities; (3) a revolving door of personnel who migrated between Google and
the Obama administration, united by elective affinities during Google’s crucial
growth years of 2009-2016: and (4) Google’s intentional campaign of influence
over academic public opinion and larger cultural conversation so vital to
policy formation, public opinion, and political perception. The results os
these four arenas of defense contribute to an understanding of how surveillance
capitalism’s facts came to stand and why they continue to thrive.” (The Age of
Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p.
122)
Tradução:
“Fortificações foram erguidas
em quatro arenas principais para proteger o Google e, eventualmente, outros
capitalistas de vigilância, contra interferências e críticas políticas: (1) a
demonstração das capacidades únicas do Google como fonte de vantagem
competitiva na política eleitoral; (2) uma confusão deliberada de interesses
públicos e privados por meio de relacionamentos e atividades agressivas de
lobby; (3) uma porta giratória de pessoal que migrou entre o Google e o governo
Obama, unida por afinidades eletivas durante os cruciais anos de crescimento do
Google em 2009-2016: e (4) campanha intencional de influência do Google sobre a
opinião pública acadêmica e a conversa cultural tão vital à formação de
políticas, opinião pública e percepção política. Os resultados dessas quatro
arenas de defesa contribuem para a compreensão de como os fatos do capitalismo
de vigilância surgiram e por que eles continuam a prosperar.”
Em razão de seus próprios
imperativos, o capitalismo de vigilância se expande ao infinito sem respeitar
fronteiras nacionais. Nesse contexto, qualquer atitude governamental brasileira
que ferisse os interesses do Google poderia ser percebida como um ataque à
supremacia da comunidade norte-americana de inteligência. Mutatis mutandis,
qualquer medida contra os abusos cometidos pela NSA revelados por Edward
Snowden poderiam ferir os interesses do Google de coletar gratuitamente uma
quantidade crescente de excedente comportamental no Brasil para vender isso com
lucro os interessados no mercado comportamental futuro brasileiro.
Mas o que realmente causa mas
estranhamento é a aproximação entre o Google e a dupla de irmãos que teve um
papel decisivo no golpe de estado contra Dilma Rousseff.
“According to the Center for Media and Democracy’s investigattory
research report ‘The Googlization of the Far Right’, the corporation’s 2012
list of grantees featured a new group of antigovernament groups known for their
opposition to regulation and taxes and their support for climate-change denial,
including Grover Norquist’s Americans for Tax Reform, the Koch brothers- funded
Heritage Action and other antiregulatory groups such as the Federalist Society
and the Cato Institute. The corporation also quietly acknowledged its
membership in the corporate lobbying group ALEC, known for its opposition to
gun control and emission curbs, and for its support for voter-suppreson
schemes, tobaco industry tax breaks, and other far-right causes.” (The Age of
Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p.
126)
Leia também: Prisão de dois jornalistas escoceses causa
repúdio internacional, por Ruben Rosenthal
Tradução:
“De acordo com o relatório de
pesquisa denominado ‘A Googlelização da extrema direita”, que foi elaborado
pelo ‘Center for Media and Democracy’, a lista de concessões da corporação em
2012 apresentou um novo grupo de grupos antigovernamentais conhecidos por sua
oposição à regulamentação e impostos e seu apoio à negação da mudança
climática, incluindo os norte-americanos pela reforma tributária de Grover
Norquist, os Heritage Action financiados pelos irmãos Koch, e outros grupos contra
regulamentação estatal, como o Federalist Society e o Cato Institute. A
corporação também reconheceu silenciosamente sua participação no grupo de lobby
empresarial ALEC, conhecido por sua oposição ao controle de armas e restrições
de emissão e por seu apoio a esquemas de supressão de eleitores, incentivos
fiscais à indústria de tabaco e outras causas de extrema direita.”
A ligação entre o Google e os
irmãos Koch é muito significativa. É fato notório que os Koch ajudaram a
financiar os movimentos de rua que levaram ao golpe de 2016
https://www.theguardian.com/world/2017/jul/26/brazil-rightwing-dilma-rousseff-lula.
“With Google in the lead, surveillance capitalism vastly expanded the
market dynamic as it learned to expropriate human experience and translate it
into coveted behavioral predictions. Google and this larges surveillance
project have been birthed, sheltered, and nurtured to success by the historial
conditions of their era – second-modernity needs, the neoliberal inheritance,
and the realpolitik of surveillance excepcionalism – as well as by their own
purpose-built fortifications designed to protect supply chain operations from
scrutiny throght political and cultural capture.” (The Age of Surveillance
Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p. 127)
Tradução:
“Com o Google na liderança, o
capitalismo da vigilância expandiu amplamente a dinâmica do mercado, à medida
que aprendia a expropriar a experiência humana e a traduzi-la em previsões
comportamentais cobiçadas. O Google e esse grande projeto de vigilância foram
criados, protegidos e nutridos pelo sucesso pelas condições históricas de sua
época – necessidades da segunda modernidade, herança neoliberal e política real
do excepcionalismo da vigilância – e por suas próprias fortificações criadas de
propósito e projetadas para proteger as operações da cadeia de suprimentos do
escrutínio por meio de captura política e cultural.”
A captura do governo
brasileiro pelo Google certamente se consolidou com a chegada de Michel Temer e
Jair Bolsonaro ao poder. Não é por acaso que, após o golpe de 2016, os
interessados (ou seja, os parceiros reais ou potenciais do Google no Brasil)
começaram a atacar ferozmente o Marco Civil da Internet sancionado por Dilma
Rousseff https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/12/1940047-teles-preparam-investida-contra-lei-que-proibe-cobrar-mais-na-internet.shtml.
Como muitos, cheguei a
acreditar que os norte-americanos ajudaram a derrubar Dilma Rousseff por causa
do Petróleo. Esse pode ter sido apenas um dos motivos. O outro certamente foi o
interesse do Google de se apropriar daquilo que ele considera uma matéria-prima
exclusivamente sua: o excedente comportamental dos brasileiros que usam
internet e Smartphones. Isso explicaria de certa maneira o maior sucesso das
estratégias golpistas nas regiões em que a informatização é maior. Nas regiões
tecnologicamente menos desenvolvidas do Brasil o golpe fracassou, tanto que a
esquerda elegeu governadores de diversos estados nordestinos.
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