terça-feira, 23 de novembro de 2010

MÍDIA E HISTÓRIA - Alberto Dines - A chocante parceria Globo-Folha

Mais do que isso, preocupante.

A mais grave ameaça sobre a imprensa brasileira desde os tempos da ditadura.

Pela primeira vez surge nítido e recortado o fantasma do poder econômico.

Apesar da promessa dos 150 novos postos de trabalho nas redações.

Apesar da promessa de investimentos de 50 milhões de dólares.

O novo jornal de economia de negócios anunciado na segunda-feira no Rio por João Roberto Marinho e Luís Frias concentra ainda mais a super-concentrada mídia brasileira.

Quando a Folha dizia por intermédio de seu Diretor de Redação (aliás, ausente da solenidade embora seu nome constasse do convite) que O Globo fazia "jornalismo chapa branca", isso era bom para todos. Quando O Globo respondia chamando a Folha de "arrogante e irresponsável", também era muito bom para todas as partes.

Exibiam, além da falta de compostura, uma polarização salutar, uma diversidade de opiniões saneadora. Apesar das agressões, a democracia saía fortalecida. Agora, os dois grupos são sócios num terceiro negócio.

Sócios não brigam, sócios tendem a se entender.

Acabou a guerra, mas a paz que se prenuncia é tenebrosa.

O cidadão comum será o grande prejudicado. E os homens de negócio, se ganharem algo com o novo veículo, será pouco, pouquíssimo, comparado com os prejuízos que este Tratado de Tordesilhas, amaciante e sufocador, causará à sociedade brasileira.

Chama a atenção que o acordo tenha sido anunciado antes que seja aprovada a emenda que altera o artigo 222 da Constituição, que corre célere na Câmara. Alterada nossa Carta, a Gazeta Mercantil poderia perfeitamente convocar sócios estrangeiros ou capitalizar-se normalmente por meio da adesão de pessoas jurídicas.

Fica evidente que a nova associação visa canibalizar a Gazeta Mercantil. Não é avanço, é massacre, retrocesso.

Os 150 novos postos de trabalho serão preenchidos com o pessoal que será dispensado dos cadernos de economia do Globo e da Folha. Ou da Gazeta Mercantil.

Chama a atenção também que a Editora Abril, parceira estratégica e política do Grupo Folha, tenha sido informada meia hora antes do anúncio oficial por um jornalista de outro veículo que desejava confirmação da notícia. (Folha e Abril são sócios fifty-fifty no provedor Universo Online.) Isso na esfera dos comuns mortais tem um nome: traição.

A Folha, que se assume publicamente como baluarte contra o neoliberalismo e o capitalismo selvagem, joga pesado quando se trata de sua ambição hegemônica. Sua pregação em favor de uma sociedade equilibrada vale tanto quanto os compromissos morais que assume e rasga. Suas cruzadas, à luz do que acaba de armar, estão arquivadas.

Estamos assistindo a um dos piores momentos da história da imprensa brasileira. A instituição-modelo despojou-se voluntariamente da fantasia para apresentar-se como uma vestal hipócrita, mesquinha e vil.

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